15 de jan. de 2012

Sensibilidade controlada

O amor se torna público desde quando ele estende a mão pela primeira vez com muito nervosismo para andar na rua. Não existe como disfarçar. Sensibilidade controlada é indiferença.
Os pares se amam, mas um deles está descontente por amar. Não desejava estar amando. É um amor contrariado, um amor dissidente. Como uma maldição: Por que foi acontecer comigo logo agora? Vai procurar mais tarde, em outra pessoa, o que tem na mão agora.
Não identifica que já têm o mais complicado, que o restante é simples: um cartão, um torpedo, uma cartinha, uma lembrança, um prato predileto, um capricho, um colo.

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Cada um sofre como pode. Alguns precisam se retirar por dias e permanecer incomunicáveis. Outros nem deixam a dor esfriar e vão para festas. Não há padrão de comportamento.
Eu me recupero com ligeireza. O luto é meu. Não utilizarei nenhuma desculpa para não cumprir as atividades. Não irei diminuir meu ritmo, apesar de somente pensar na incurável distância.
Há de tocar a vida mesmo que o corpo seja mais lento e menos obediente. Não que eu não deixe de sentir, eu não me excluo de sentir nada. Mas eu não sinto somente isso. Não construirei arquibancadas para o grito. Dispenso a exclusividade. Apenas não posso me sentar e me esbaldar na cama no escuro, penarei de pé, andando apressado pelos corredores, girando pelas salas, conversando suspirado, misturando as lembranças boas com as ruins. Não me fixarei no problema para odiar alguém. Sou contrário a mobilizar nossas forças e nossa disciplina para não ter dúvidas. Eu adoro as dúvidas. As dúvidas regeneram as verdades. Uma verdade parada não é paz, é abandono.
Não mostrar o sangue não elimina a chance de hemorragia. O riso é catarse. O riso é muito mais nervoso do que a coriza. O riso é mais um jeito de gemer.
Meu sofrimento não é cerimonioso. Vou me distribuindo. Parcelando a angústia. Guardo a consciência de que não resolverei a dívida afetiva à vista. Não espalharei embalagens de comida chinesa e redomas de papelão de pizza pela sala, não convidarei moscas e baratas para coroar a tortura, atenderei o interfone, não sumirei para chamar atenção.
Não enxergará uma anormalidade em minha fossa. Meu quarto estará limpo como num dia de trabalho, a louça estará lavada. A explicação é simples: aquele que é capaz de atender uma tele-entrega tem condições de voltar a atender sua vida.
Não me dou nem o direito de jejum, de emagrecer, de afundar olheiras. Esperneio os olhos com cebolas e sigo viagem pelos varais. Não conheço tempo para drama. Não gozo do direito da frescura. O luxo de parar a rotina e me exilar na chácara de um amigo. Eu mesmo me sirvo e me atendo. Não é errado procurar a solidão, curtir o couro e ajeitar as fotografias por ordem de datas. Lenços, para quê?
O sol lava a minha cara. O suor é a mesma água da lágrima e mata igualmente a sede.





Carpinejar tem falado muito por mim ultimamente. Estou off-line, de férias, com a cabeça em alfa, o corpo em beta e o coração em outro planeta. Tanto pra falar e, ao mesmo tempo, só confusão aqui. Não conseguiria chegar a uma conclusão hoje, só encheria os olhos de vocês com loucuras e devaneios.

Voltarei, mas não tenho pressa.
Afinal, só o tempo...
Quanto tempo mais?

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